por Andrea Pavlovitsch

Precisamos de testemunhas

Estava assistindo o filme “Dança comigo” quando a personagem, esposa do Richard Gere na trama, pergunta para outro personagem: “Por que nos casamos”? E ela mesma responde: “Porque precisamos de testemunhas para a nossa vida, para as nossas vidas fazerem algum sentido e não sentirmos que estamos passando em branco, vivendo em branco”. Fiquei mesmo pensando nessa frase.

Em era de mídias sociais e digitais, nos casamos com o mundo. Precisamos do testemunho das pessoas da nossa timeline. O que comemos, o que compramos, como nos vestimos. Queremos que as pessoas vejam. Gostem ou não, mas vejam. Vejam que somos felizes, que conquistamos coisas. Que perdemos entes queridos, que estamos sofrendo. Vejam que temos bom gosto para decoração ou que sabemos cozinhar minimamente. Precisamos sim, de testemunhas.

O ser humano é um ser social. De fato. E se o meu professor de psicologia de grupo lesse esta frase minha, ficaria com orgulho. “Nenhum homem é uma ilha”, disse John Donne, por mais que algumas pessoas ainda achem isso. Mesmo numa era em que tudo é entregue na sua casa, em que você pode comprar qualquer coisa, qualquer coisa mesmo pela internet, ainda assim, precisamos de testemunhas.

Tem havido um movimento de arrumação da casa. As lojas de bricolagem (fazer as coisas da casa, como pequenas reformas e construções sozinho) estão lotadas de opções. As pessoas querem um ninho bacana, confortável. Mas por quê? Porque, todo o medo e a frustração de ir lá fora (um mundo considerado perigoso, cheio de doenças e violência, e com fila para quase tudo) nos faz querer ficar bem dentro de casa. Para poder interagir em segurança com as pessoas.

No fundo, estamos todos apavorados com o mundo lá fora. Mas doidos para sair para brincar. Como crianças presas num dia de chuva, ouvindo da mãe que não podemos ir lá, porque poderíamos ficar doentes. Mas o desejo de interagir, de estar perto do outro é imenso. Acredito que o movimento daqui para frente será o de ficar em casa, mas receber nossos parentes e amigos. Aqueles amigos que fizemos na escola, no trabalho e nos demais lugares que consideramos seguros.

Viver é muito, muito perigoso e, como diria a minha mãe: “Para morrer, basta estar vivo”. Mas é importante que nos permitamos ter as nossas testemunhas mais próximas. Não ter medo das relações de verdade, com pessoas de carne e osso. Saber que nossa ingenuidade só passa quando convivemos, de fato, com as pessoas. Cuide da sua casa, das suas redes sociais. Mas cuide também das pessoas ao seu redor. Elas são importantes e todo ser humano precisa disso. E se você é um deles (ou melhor, um de nós), também precisa.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.