por Andrea Pavlovitsch

Consumindo gente

Estou, ainda, lendo o livro “Amor líquido”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Digo ‘ainda’ porque o livro é um daqueles socos no estômago, que nos dão insônia e nos fazem repensar a vida. Isso posto, é complicado lê-lo de uma vez só, parecendo mais fácil ler aos poucos, parcimoniosamente.

Mas no sábado à noite, presa num spa para perder uns quilinhos e descansar, retomei a leitura, e ganhei uma noite insone e esfomeada. Péssimo negócio. O fato é que ele é bem claro e inteligente nas suas colocações sobre as estruturas modernas de relacionamento.

Falou um pouco sobre namoros na internet, antes mesmo da criação dos aplicativos, mas de um modo que falou e disse. Eu não seria capaz de explicar a coisa tão bem como ele, nem em um milhão de anos, então, sugiro a leitura veementemente. Mas em linhas gerais, o que mais me chamou a atenção foi a relação entre sociedade de consumo e relacionamentos.

Ele explica que, antigamente, ter um filho e uma família era uma questão de sobrevivência. Sem um herdeiro, as terras eram perdidas para invasores e o nome da família não existiria. Então, ter um filho era mais uma força de trabalho para a família, alguém pra contribuir, depois de criado, e manter as coisas funcionando e dentro das mãos das mesmas pessoas.

Atualmente, não existe mais isso. Hoje, somos guiados pela cultura e temos meios de sobreviver sem deixar nenhum herdeiro. O trabalho é mais individual, trabalhamos para empresas, e se não tiver um, terá outro. Então, as relações mudaram, obviamente, guiadas pelo mood de consumidores que vaza para as relações.

Assim, querem quantidade, e não qualidade. Todo mundo pode ser substituído a qualquer momento, da mesma maneira que fazemos com a lavadora de pratos ou o celular. As relações, assim como os objetos, são feitas para durarem pouco e para que procuremos a próxima o mais rápido possível.

Me lembro da minha avó e sua linda e antiga geladeira que já tinha sido pintada, trocada a alavanca e mais um cem número de consertos, mas ela não queria uma nova. Meu pai insistia e, de tanto insistir, ela topou. Só que a geladeira nova quebrou em dois ou três anos, fazendo ela encher o saco de como a velha era melhor.

As relações são como as geladeiras. Os aplicativos de paquera, então, são verdadeiros catálogos de homens e mulheres. Não que algumas das pessoas lá, e eu prevejo 15% dos homens e 40% de mulheres, não estejam realmente buscando relacionamentos mais duradouros. Mas para a maioria, o outro é só mais um contato numa longa lista, longa como a lista do supermercado.

Nesse supermercado falta profundidade e sobra ignorância. Somos crianças grandes consumindo pessoas e não nos entregando a nada mais profundo. Então, isso é triste e sim, me deixou insone. Será que ainda existem por aí pessoas que tratam as outras como pessoas, e não mercadorias? Será que a nossa cabeça de consumidor nos cegará para o que é verdadeiramente o amor, as relações e a profundidade dos sentimentos?

Infelizmente, as perspectivas não são das melhores, mas podemos fazer a nossa parte. Podemos repensar o nosso consumo, tanto fisicamente como emocionalmente. Podemos pensar que temos o poder de magoar as pessoas e sermos magoados por elas e que isso é só parte da vida. As relações não são perfeitas, não são itens de devolução ou imputs e putputs. Sejamos consumidores mais responsáveis e pessoas melhores. É só o que ainda dá para fazer.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.