por Andrea Pavlovitsch

À sombra da parreira

Estive hoje na casa de uma tia minha que, confesso, não sou muito íntima. Ela é aquela pessoa do lado da família que acabou se afastando e criando sua própria comunidade, separada das outras pessoas. Até hoje não sei se ela se separou, ou se foi separada pelas circunstancias, mas ela, de alguma maneira, voltou para o centro da família e suas irmãs, minha mãe.

Ela está doente. Um tipo de câncer de pulmão, mais um dos milhões que acometem tantas e tantas pessoas nestes dias de provações terrenas. Ainda é uma mulher forte. Exibiu seus dois quilos a mais, em uma semana, com um orgulho de quem acabou de ganhar um prêmio da mega sena. Dizia que estava forte e que Deus a salvaria. O fato é que, desde que ela soube da doença, e começou o calvário para médicos e hospitais, ela passou a acreditar em Deus. Justo ela, uma mulher que não acreditava em nada.

Os olhos dela se abriram para as histórias de pessoas que se curaram, de pessoas que recuperaram fortunas, que saíram do nada em direção a alguma coisa. Histórias que, com certeza, ela já tinha visto antes, mas que ainda não tinha os olhos de ver. Isso, às vezes uma doença nos traz os olhos de ver. Às vezes é um livro, um filme, um programa na TV. Ás vezes é um filho com problemas, uma dívida financeira, um amor perdido. Mas quando a vida quer nos ensinar ela simplesmente arruma uma maneira.

Fui até o seu quintal de casa simples. O quintal estava todo coberto por uma parreira imensa de uvas tenras e rosadas. Ela mesma plantou e, com suas mãos, fez com que ela ficasse linda. Reclamava que este ano não deram boas uvas, mas jurava que no ano que vem elas estariam lindas, pois, assim que terminasse o tratamento e se sentisse mais forte, podaria toda a parreira e cuidaria melhor dela. E neste momento eu me perguntei de quem ela estaria falando: da parreira ou dela mesma.

Achei engraçada a vida. Ela deu uma parreira linda para mostrar para ela, ironicamente, como ela era muito mais capaz de cuidar dela do que achava. E deu a ela um ano de más uvas e doença, para mostrar a mão de Deus. Ela está melhorando, fortalecendo. Ainda tem muitos problemas e ainda tem uma longa jornada pela frente, porque foi assim que ela aprendeu a agir. Mas as uvas prometem. Ela promete. E eu vi Deus ali, naquela sala, naquele quintal. Nela me mostrando seus dois quilos e suas uvas.

Deus estava ali, sentado no sofá enquanto sorria para nós para mostrar a sua lição: que nada não tem cura nem tratamento e que, sempre haverá a sombra refrescante de uma parreira. Que Ele está em todas as coisas, por mais nomes que Lhe damos. Que eu poderia ali aprender com a tia distante ou no meu próprio corpo. Eu escolhi aprender com o exemplo. Um exemplo bonito e de força, enquanto comia um cacho de uvas.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.